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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

MARY SHELLEY: A CRIADORA DE FRANKENSTEIN







QUEM NUNCA OUVIU FALAR, ASSISTIU ALGUM FILME OU LEU O LIVRO DO MONSTRO ATORMENTADO COM PARAFUSOS  SOLTOS, CHAMADO FRANKENSTEIN?




POIS BEM, HOJE VAMOS CONHECER UM POUCO MAIS SOBRE A ORIGEM DA HISTÓRIA DO FAMOSO  MONSTRO E DE SUA CRIADORA: MARY SHELLEY.




 A OBRA TRATA-SE NA REALIDADE DE UMA PROFUNDA REFLEXÃO SOBRE OS VALORES E OS COMPORTAMENTOS HUMANOS.




"DA CABEÇA DA MOCINHA SAIU UM MONSTRO"
GERALDO GALVÃO FERRAZ

UMA SOPA DE CARANGUEJO QUE CAIU MAL NO ESTÔMAGO É A CAUSA - FOLCLÓRICA, MAS MUITAS VEZES CITADA - DO PESADELO QUE LEVOU BRAM STOKER A CONCEBER SEU AMEDRONTADOR DRÁCULA. COM MARY SHELLEY E SEU FRANKENSTEIN FOI MUITO DIFERENTE. MARY TINHA 19 ANOS E ESTAVA FELIZ DA VIDA, EM MAIO DE 1816, JUNTO AO SEU AMADO POETA PERCY BYSSHE SHELLEY (ELES SE CASARIAM NO FIM DO ANO) FUGINDO DOS CREDORES DELE NA INGLATERRA, OS DOIS, MAIS O FILHO WILLIAM E CLAIRE CLAIRMONT, MEIA-IRMÃ DE MARY, FORAM PARA A SUÍÇA, MORAR EM UM CASARÃO TÉRREO EM MEIO À TRANQUILIDADE DE UM TERRENO COM GRAMADOS, PEQUENOS BOSQUES E VINHEDOS.

ALI, SHELLEY LOGO REENCONTROU A INSPIRAÇÃO PARA ESCREVER, ENQUANTO MARY PARECIA UMA CRIANÇA EM FÉRIAS. PASSEAVA PELO LAGO AZUL E DOURADO, ESTUDAVA LATIM E ITALIANO, LIA MONTAIGNE, VOLTAIRE E MILTON.

 LORDE GEORGE BYRON, JÁ UM POETA FAMOSO E AMANTE DE CLAIRE, ATRAVESSAVA O LAGO TODO DIA PARA ALMOÇAR OU JANTAR COM ELES. ACABOU MUDANDO-SE PARA A VILA DIODATI, A POUCOS MINUTOS DE CASA DE SHELLEY. LÁ HOSPEDOU UM MÉDICO ITALIANO, JOHN POLIDORI, DE QUEM NÃO GOSTAVA MUITO, MAS CUJA COMPANHIA SE ACOSTUMARA.

EM MEADOS DE JUNHO, REPETIDAS TEMPESTADES ESTRAGARAM O CLIMA MARAVILHOSO DOS DIAS DE MAIO, IMPEDINDO OS PASSEIOS PELO LAGO E OBRIGANDO TODOS A FICAR MAIS NAS DUAS CASAS, EM TORNO DAS LAREIRAS. A CONVIVÊNCIA NÃO AJUDOU BYRON E SHELLEY SE ENTENDEREM, POIS A FORMAÇÃO PURITANA DO SEGUNDO NÃO SE AJUSTAVA AO PENSAMENTO PAGÃO DO PRIMEIRO. LOGO O LUGAR SERIA O CENÁRIO PERFEITO PARA UM CONTO DE TERROR: AS ONDAS DO LAGO, CRISPADAS E FORTES, FAZIAM UM RUÍDO QUE SE MISTURAVA COM O VENTO QUE UIVAVA ENTRE AS ÁRVORES NAS NOITES LÚGUBRES.

A DIVERSÃO ERA LER HISTÓRIAS DE FANTASMAS, SOBRETUDO UM LIVRO QUE BYRON DESCOBRIU EM GENEBRA, UMA COLETÂNEA ALEMÃ CHAMADA "FANTASMAGORIANA" . OS DOIS POETAS TAMBÉM DISCUTIAM MUITO ALGUMAS EXPERIÊNCIAS DE DARWIN RELACIONADAS COM A CONSERVAÇÃO DE SERES APÓS A MORTE E A AÇÃO DA ELETRICIDADE SOBRE OS MORTOS.



A JOVEM SUPERA OS MESTRES

CERTA NOITE, FICOU DECIDIDO QUE CADA UM ESCREVERIA UMA HISTÓRIA SOBRENATURAL. SHELLEY COMEÇOU, MAS NÃO TERMINOU, ANATOMIA, UM RELATO INSPIRADO EM LEMBRANÇAS INFANTIS; POLIDORI FEZ UMA NARRATIVA JUNTANDO CRIATURAS SINISTRAS ESTRELADAS POR UMA MULHER COM CARA DE CAVEIRA; BYRON ESCREVEU UMA HISTÓRIA DE VAMPIRO, QUE O EQUÍVOCO POLIDORI REESCREVERIA E PUBLICARIA COMO DE SUA AUTORIA, TRÊ ANOS DEPOIS, CHAMADA O VAMPIRO. ESTIMULADA POR SHELLEY A PARTICIPAR, MARY PENSOU EM UM TEMA INFLUENCIADA PELAS CONVERSAS SOBRE ELETRICIDADE E GALVANISMO. E COMEÇOU A ESCREVER O LIVRO QUE SAIU, EM LONDRES, NO ANO DE 1818: FRANKENSTEIN, OU O PROMETEU MODERNO.

O SUCESSO DO LIVRO FEZ MARY FICAR AINDA MAIS FAMOSA QUE SEUS PAIS  ILUSTRES, O TEÓRICO ANARQUISTA WILLIAM GODWIN E A PRECURSORA DO FEMINISMO MARY WOOLSTONECRAFT. GODWIN FOI UM UM PRECURSOR DO PENSAMENTO LIBERTÁRIO E DA NÃO-VIOLÊNCIA, RESPEITADO POR TODA A INTELECTUALIDADE INGLESA, DE SHELLEY  E BYRON A WILLIAM BLAKE.
MARY WOOLSTONECRAFT, QUANDO SE CASOU COM ELE, JÁ ERA CONSIDERADA A FUNDADORA DO FEMINISMO MILITANTE, AUTORA DE LIVROS EM QUE DEFENDIA TESES COMO: "TODOS OS HOMENS SÃO SEDUTORES, PAIS DOS TIRANOS, E TODAS AS MULHERES SÃO MISERÁVEIS VÍTIMAS DO SISTEMA SOCIAL".



DESDE O NASCIMENTO, A MARCA DA TRAGÉDIA

 MARY WOOLSTONECRAFT GODWIN NASCEU EM SOMERS TOWN, NA INGLATERRA, EM 30 DE AGOSTO DE 1797. SUA MÃE MORREU 10 DIAS DEPOIS POR CAUSA DE UMA HEMORRAGIA INTERNA. POUCO APÓS, GODWIN SE CONSOLOU, CASANDO-SE COM UMA VIZINHA, MULHER MEDÍOCRE QUE SE DEDICOU A INFERNIZAR A VIDA DA PEQUENA MARY. A COISA CHEGOU A TAL PONTO QUE GODWIN RESOLVEU MANDAR MARY, AOS 15 ANOS, PARA A CASA DE UM AMIGO NA ESCÓCIA. ALI, NO MEIO DE UMA FAMÍLIA CULTA E DE ESPÍRITO LIVRE, MARY DESABROCHOU. VOLTANDO PARA LONDRES, CONHECEU UM AMIGO DE SEU PAI, O POETA SHELLEY, ENTÃO CASADO COM HARRIET. FOI PAIXÃO À PRIMEIRA VISTA.

DOIS MESES APÓS O PRIMEIRO ENCONTRO, O CASAL FUGIU E FOI VISITAR VÁRIOS PAÍSES EUROPEUS. OS PROBLEMAS FINANCEIROS DE SHELLEY ACABARAM QUANDO ELE RECEBEU UMA HERANÇA EM 1815 E OS DOIS FORAM MORAR EM NELSON SQUARE. O POETA, GENEROSO, ALÉM DE UMA PENSÃO PARA HARRIET, DEU OUTRA AO FALIDO GODWIN.

NO COMEÇO DE 1816, NASCEU WILLIAM (MARY PERDERA UMA FILHA ANTES) E ELES FORAM PARA A SUÍÇA, ONDE HOUVE A CONCEPÇÃO DO LIVRO QUE TORNOU MARY FAMOSA COMO AUTORA.
DE VOLTA À INGLATERRA, ELES SE CASARAM E FORAM MORAR EM UMA BELA CASA PERTO DO RIO TÂMISA.

MARY SE OCUPOU COM O FINAL DA REDAÇÃO DE FRANKENSTEIN, AO MESMO TEMPO QUE SE INTERESSAVA PELO RACIONALISMO E PELO SOCIALISMO. AINDA ACHOU TEMPO PARA ESCREVER UM LIVRO SOBRE SUAS VIAGENS PELA EUROPA, HISTÓRIA DE UMA VIAGEM DE SEIS SEMANAS.
SUA FILHA CLARA EVERINA NASCEU EM 1818.

INDO PARA A ITÁLIA, A FAMÍLIA SHELLEY MOROU EM MILÃO, LIVORNO E LUCCA. EM VENEZA, REENCONTRARAM BYRON.
A TRAGÉDIA LOGO OS ATINGIU; CLARA MORREU DE DISENTERIA E POUCO DEPOIS FOI A VEZ DE WILLIAM. O CASAL DESESPERADO, FOI MORAR EM FLORENÇA, ONDE NASCEU UM MENINO CHAMADO PERCY FLORENCE. NO COMEÇO DE 1822, SHELLEY ENTUSIASMOU-SE POR UMA CASA QUE DESCOBRIU ÀS MARGENS DO GOLFO DE SPENZIA. MARY, PREOCUPADA COM O ISOLAMENTO DO LUGAR NÃO SE ANIMOU MUITO.
 EM 08 DE JULHO DE 1822, SHELLEY, APESAR DO MAU TEMPO, RESOLVEU SAIR MAR AFORA COM UM AMIGO NO VELEIRO ARIEL. DURANTE DEZ DIAS, NÃO HOUVE NOTÍCIAS, ENTÃO PESCADORES ACHARAM OS CORPOS NUMA PRAIA EM VIAREGGIO.


LIVROS E DECEPÇÕES



  
ARRASADA COM A MORTE DO MARIDO, QUE SÓ TINHA 30 ANOS, MARY VOLTOU COM O FILHO PERCY PARA A INGLATERRA. EMPENHOU-SE EM REPETIR O SUCESSO DE FRANKENSTEIN, PUBLICANDO O ROMANCE VALPERGAS. EM 1826, SAIU O ÚLTIMO HOMEM, UM LIVRO DE FICÇÃO CIENTÍFICA QUE TRATA DO FIM DA HUMANIDADE NUM ESTILO QUE LEMBRA UM POUCO OS LIVROS DE H.G. WELLS. MAS, SEM CONSEGUIR GRANDE ÊXITO, MARY RESOLVEU MUDAR DE GÊNERO.
EM 1835 E 1837, ESCREVEU LODORE E FALKNER, DOIS ROMANCES AUTOBIOGRÁFICOS HOJE COMPLETAMENTE ESQUECIDOS. 

EM 1836, EM PERKIN WARBECK, ELA CONTOU A HISTÓRIA DE UM AVENTUREIRO NA ÉPOCA DA GUERRA DOS LANCASTER CONTRA OS YORK, EPISÓDIO MARCANTE DA HISTÓRIA DA INGLATERRA.

UM TANTO DECEPCIONADA COM A LITERATURA E COM PERCY, QUE NÃO DEMONSTRAVA NENHUMA CURIOSIDADE INTELECTUAL, MARY PASSOU A COLABORAR COM VÁRIAS REVISTAS, ESCREVENDO SOBRE AUTORES FRANCESES, ITALIANOS E ESPANHÓIS. TAMBÉM COMEÇOU UMA SÉRIE DE VIAGENS COM O FILHO PELO CONTINENTE EUROPEU. NO VERÃO DE 1842, TEVE UMA BREVE LIGAÇÃO COM O JOVEM ESCRITOR ALEXANDER KNOX E REENCONTROU SUA MEIA-IRMÃ CLAIRE. QUE ABRIGAVA, EM PARIS, REFUGIADOS POLÍTICOS ITALIANOS. LOGO, MARY ESTAVA APAIXONADA POR UM DELES , UM CERTO GATTESCHI, SUJEITO INESCRUPULOSO QUE POUCO DEPOIS A ABANDONOU PARA IR VIVER À CUSTA DE OUTRA MULHER.

EM 1848, PERCY CASOU-SE COM UMA VIÚVA DE QUEM MARY FICOU MUITO AMIGA. OS TRÊS FORAM  MORAR EM LONDRES, EM 1850, PASSARAM UMA LONGA TEMPORADA EM NICE. DE VOLTA À CAPITAL INGLESA, MARY FICOU DOENTE E, PARCIALMENTE PARALISADA, MORREU AOS 54 ANOS EM 1º DE FEVEREIRO DE 1851.



NAS TELAS, A IMORTALIDADE 

MAS, COM A AJUDA DO CINEMA E DO ATOR BORIS KARLOFF EM PARTICULAR, MARY SHELLEY ATRAVESSOU OS PORTAIS DA MORTE E CONTINUOU VIVA, GRAÇAS À SUA CRIATURA NASCIDA À BEIRA DO LAGO LEMANO, BATIDO PELAS TORMENTAS, AO SOM DE VENTOS RUIVANTES E TROVÕES.

CONSTA QUE É O LIVRO MAIS ADAPTADO PARA O CINEMA QUE EXISTE.
A PRIMEIRA VERSÃO FOI FEITA EM 1910, PELOS ESTÚDIOS EDISON, E NÃO HÁ MAIS NENHUMA CÓPIA. O MONSTRO SURGIU NUM CALDEIRÃO DE PRODUTOS QUÍMICOS E NÃO FEZ NENHUM SUCESSO. EM 1931, O TERCEIRO FRANKENSTEIN FOI O QUE TRANSFORMOU O MONSTRO EM UM ÍCONE DO TERROR. O DIRETOR ERA PARA SER O FRANCÊS ROBERT FLOREY E O ATOR ESCOLHIDO ERA O FAMOSO BELA LUGOSI. JAMES WHALE, UM CINEASTA INGLÊS, CONSEGUIU  AFASTAR FLOREY E CONTRATOU UM AMIGO TAMBÉM INGLÊS, COLIN CLIVE , PARA SER O DOUTOR. CONTA-SE A HISTÓRIA, NUNCA CONFIRMADA, DE QUE ELE ENCONTROU O ATOR QUE FARIA O MONSTRO NO RESTAURANTE DOS ESTÚDIOS
UNIVERSAL. ERA UM DESCONHECIDO  QUE, MESMO CONTRARIADO POR NÃO MOSTRAR O ROSTO NO FILME, DISFARÇADO POR MONTANHAS DE MAQUIAGEM APLICADAS PELO MESTRE DO MAKE-UP, JACK PIERCE, NÃO PODIA REJEITAR 125 DÓLARES SEMANAIS: BÓRIS KARLOFF.

KARLOFF NEM SEQUER TEVE SEU NOME DIVULGADO ANTES DA ESTREIA, COMO PARTE DE UMA CAMPANHA DE MARKETING PARA DEIXAR O PÚBLICO CURIOSO SOBRE QUE ATOR IRIA FAZER O MONSTRO.
O SUCESSO FOI ENORME!
O MESMO ÊXITO ACONTECEU COM A NOIVA DE FRANKENSTEIN, EM QUE KARLOFF GANHAVA COMO COMPANHEIRA A ATRIZ ELSA LANCHESTER. O RESTO É HISTÓRIA. FRANKENSTEIN TEVE INÚMERAS VERSÕES, CONTRACENOU ATÉ COM OS TRÊS PATETAS. AS MAIS SIGNIFICATIVAS RECENTEMENTE FORAM: A DOS ESTÚDIOS HAMMER, COM PETER CUSHING COMO O DOUTOR; A PARÓDIA O JOVEM FRANKENSTEIN, DE MEL BROOKS; A PROMETIDA, COM STING CONSTRUINDO UMA BELA CRIATURA, A ATRIZ JENNIFER BEALS; E A VERDADEIRA HISTÓRIA DE FRANKENSTEIN, COM O MONSTRO INTERPRETADO POR ROBERT DE NIRO.




Fonte:
Frankenstein (Mary Shelley) - Editora Ática - Tradução de Marcos Maffei - 1998
 

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